Seis anos sem MORAES MOREIRA — Quanta saudade!
CRÔNICAS DA ERA DO ROCK – Rodrigo Leste – E113
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Há exatos 6 anos, em 13 de abril de 2020, Moraes Moreira tirava definitivamente o time de campo, “partindo desta para uma melhor”, como costumava-se dizer. O artista morreu de madrugada, dormindo. Sofreu um ataque cardíaco fulminante. Seu corpo foi encontrado pela empregada doméstica que cuidava do apartamento em que ele morava, sozinho, na Gávea, RJ.
Recebi a notícia de sua morte com um travo na garganta, pois as boas músicas, que Moraes compunha e gravava, sempre entravam na minha playlist. Eram as minhas prediletas, aquelas que eu ouvia e reouvia muitas vezes. Posso dizer que a sua partida me deixou um pouco “órfão”, sem o apoio primordial do seu som. Essa é exatamente a minha relação com a música desse bom sujeito de Ituaçu, que desde os tempos dos Novos Baianos me dá uma injeção de ânimo através de suas belas canções.
A morte de MM se deu quando a pandemia do Covid 19, que começou em 2019, se alastrou com uma força inesperada no Brasil e no mundo. Em março de 2020 o surto foi alçado pela OMS à condição de uma pandemia global e generalizada. A doença, que provocou milhões de mortes, parou o planeta e trouxe mudanças significativas na vida das pessoas. E no Brasil, em particular, o desgoverno daquele capitão de meia-tigela (me recuso a falar o nome) tratou com absoluto descaso a grave doença, causando a morte de milhares de inocentes. Moraes não foi vítima da Covid, morreu do coração, como já dissemos, mas ficou superabalado com os efeitos causados pela pandemia. Antes de morrer, escreveu na forma de cordel:
“Eu temo o coronavirus
E zelo por minha vida
Mas tenho medo de tiros
Também de bala perdida
A nossa fé é vacina
O professor que me ensina
Será minha própria lida
Assombra-me a Pandemia
Que agora domina o mundo
Mas tenho uma garantia
Não sou nenhum vagabundo
Porque todo cidadão
Merece mais atenção
O sentimento é profundo”
(Quarentena – Moraes Moreira)
Dá pra pensar que quando MM escreve “Porque todo cidadão/Merece mais atenção”, está mandando um recado direto às autoridades que teriam a obrigação cuidar da nação, dos cidadãos, através de ações que deveriam ter sido implementadas para evitar tantas mortes desnecessárias.
Mas Moraes partiu antes da razão, do bom senso voltar a imperar, antes da pandemia ser contida, da vida superar a morte e o país e o mundo darem um respiro. Sua morte mata um pouco do Brasil que esse nobre brasileiro gostava de cantar. Inesquecíveis as músicas que fez em parceria com Galvão, esse grande poeta pouco reconhecido, e que foram imortalizadas pelos Novos Baianos. Acabou Chorare, Preta Pretinha, Mistério do Planeta, Só se não for Brasileiro Nessa Hora e Lá Vem o Brasil Descendo a Ladeira (parceria com Pepeu), dentre muitas outras.
Quando resolveu sair do Sítio do Vovô, abandonando a comunidade dos Novos Baianos, Moraes deve ter sofrido pra caramba com a sua radical decisão. Imagino que a vontade de ficar falava alto, muito alto, mas a necessidade de partir gritava dentro do coração. O impetuoso centroavante dos Novos Baianos Futebol Clube não pendurou as chuteiras, foi brilhar em outros terreiros agora como ponta de lança de sua carreira solo.
Com a cara e a coragem foi à luta, lançando seu primeiro disco onde, além das melodias, também comparecia com as letras. Em 1975 lança pela Som Livre: Moraes Moreira que traz músicas como: Guitarra Baiana(tema da novela Gabriela), Chinelo do Meu Avô, e P.S. (parceria com Luiz Gonzaga!). O álbum conta com a participação de Armandinho e da banda A Cor do Som (com o baixista Dadi, que também acabara de se separar dos NB).
O tempo se encarregou de fazer com que cada novo baiano seguisse seu rumo e se lançasse em sua carreira solo. Em 1997 surgiu o momento para os Novos Baianos voltarem a se reunir para gravar um álbum duplo ao vivo: Infinito Circular. Apesar da qualidade do repertório, da importância do grupo voltar a tocar junto, a crítica especializada não deu muita bola pro evento. Já o público sim, reconheceu a importância do acontecimento, lotando os vários locais onde o show foi apresentado, curtindo os antigos sucessos e as novidades apresentadas pela banda.
JIMMY JANIS IT’S FIRE – NOVOS BAIANOS (letra de Galvão)
“Na história da guitarra
Toda garra, Jimmy a gemer
É ciência, Damião Experiencia”
E na guitarra, Pepeu fazia o revival do sensacional riff (refrão instrumental) de Eric Clapton na emblemática Crossroads, do Cream. E a galera ia à loucura, bons tempos do melhor do rock and roll.
Ao longo de sua carreira de mais 50 anos, MM gravou cerca de 40 álbuns. Pombo Correio, Coisa Acesa, Vassourinha Elétrica, Chão da Praça, Sintonia, Festa do Interior, As Meninas do Brasil, grandes sucessos, dentre outras canções. Algumas foram feitas em parceria com Fausto Nilo, Paulo Leminski, Pepeu Gomes e Galvão. Moraes, arte acesa em nossos corações!
“Três meninas do Brasil, três corações democratas
Tem moderna arquitetura ou simpatia mulata
Como um cinco fosse um trio, como um traço um fino fio
No espaço seresteiro da elétrica cultura
Deus me faça brasileiro, criador e criatura
Um documento da raça pela graça da mistura
Do meu corpo em movimento, as três graças do Brasil
Têm a cor da formosura
Se a beleza não carece de ambição e escravatura
E a alegria permanece e a mocidade me procura
Liberdade é quando eu rio na vontade do assobio
Faço arte com pandeiro, matemática e loucura
Serenatas do Brasil, eu serei três serenatas
Uma é o coração febril, a outra é o coração de lata
A terceira é quando eu crio na canção um desafio
Entre o abraço do parceiro e um pedaço de amargura
Se eu ganhasse o mundo inteiro, de Amélia a Doralice
De Emília a Carolina, e os mistérios de Clarice
Se teu nome principia, Marina no amor Maria
Só faria melodias com a beleza das meninas
Quando o povo brasileiro viu Irene dar risada
Clementina no terreiro restaurando a batucada
Muito além de um quarto escuro, nos olhos da namorada
Eu sonhava com o futuro das meninas do Brasil”
(As meninas do Brasil – Moraes Moreira/Fausto Nilo)
Pitacos e revisão: Hilário Rodrigues
Colaboração midiática: @rodrigo_chaves_de_freitas
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