WALTER FRANCO – um animal sentimental no pátio dos loucos
Crônica da Era do Rock, por Rodrigo Leste
“Tudo é uma questão de manter
a mente quieta
a espinha ereta
e o coração tranquilo”
Um cara que cunhou esse emblemático verso, só pode ser alguém muito especial. Trata-se de Walter Franco, um dos expoentes da música de vanguarda no Brasil e que já foi chamado de “o mais maldito dos malditos da MPB”.
O paulistano Walter Franco (1945-2019) foi estudante de artes dramáticas e iniciou sua carreira musical criando trilhas sonoras para peças teatrais. A partir de 1968, começa a participar de festivais de música popular. Inscreve: Não Se Queima Um Sonho no 1º Festival Universitário da TV Tupi, em São Paulo. Curiosamente, a canção foi defendida por ninguém menos do que Geraldo Vandré.
Segundo depoimento do blogueiro Waldir Mengardo:
“No Festival Universitário da Tupi, em 1968, Geraldo Vandré, junto com o Trio Maraya, defendeu uma música de Walter Franco chamada Não Se Queima Um Sonho. Era uma alegoria a Che Guevara que foi classificada na sua eliminatória e depois sumiu na final do Festival sem nenhuma explicação…”
WF continuou tentando a sorte nos festivais. Num deles chegou a apresentar duas músicas que depois se tornaram conhecidas: Animal Sentimental e Pátio dos Loucos. Na extinta Rádio Marconi, de São Paulo, apresentou o programa Marcando Bossa, dedicado à música popular e moderna brasileira.
Sua verve experimental começou a se fazer presente no Sétimo Festival Internacional da Canção, da Rede Globo, em 1972. Franco apresentou a música Cabeça. Tratava-se de uma colagem de frases e timbres sobrepostos, influenciada pela poesia concreta (WF é filho do poeta Cid Franco). Cabeça fez parte do álbum Ou Não, de 1973, também chamado de “o disco da mosca”, por trazer uma foto do inseto na capa. Esse trabalho traz a bem-sucedida parceria de WF com Rogério Duprat (1932-2006), maestro identificado com o movimento tropicalista. Um dos destaques desse álbum é Me Deixe Mudo, outra criação experimental, que foi regravada por Chico Buarque.
WF sempre enfrentou a caretice que fechava a cara e as portas pro novo. Tomou muita vaia nos festivais e recebeu críticas avassaladoras de alguns energúmenos da imprensa. Nunca recuou:
“Eu sempre parti do princípio da necessidade do artista encontrar sua própria linguagem”, diz WF. “Todos nós temos que fazer uma coisa única, que ninguém pode fazer pela gente”.
“Sua música Cabeça atingiu em cheio o júri formado por Nara Leão, Décio Pignatari, Júlio Medaglia, Roberto Freire e Rogério Duprat, que deu ao cantor paulista o primeiro lugar na sétima edição do Festival Internacional da Canção, da Rede Globo. As autoridades do regime ditatorial vigente e a organização do festival, por outro lado, não gostaram da decisão e destituíram todo o júri, dando como vencedora do evento a cantora Maria Alcina, que interpretou ‘Fio Maravilha’, música de Jorge Bem.”
“O que é que tem nessa cabeça, irmão/ O que é que tem nessa cabeça ou não/ O que é que tem nessa cabeça saiba irmão/ O que é que tem nessa cabeça saiba ou não/ O que é que tem nessa cabeça saiba que ela pode irmão/ O que é que tem nessa cabeça saiba que ela pode ou não/ O que é que tem nessa cabeça saiba que ela pode explodir irmão/ O que é que tem nessa cabeça saiba que ela pode explodir ou não.”
“A atmosfera de tensão e a perseguição era tanta, que o cidadão nem precisava mais ser um ‘comunista’ para ser enquadrado na rua, bastava ostentar uma cabeleira vasta que já era motivo mais do que suficiente. Trabalhar com criação naqueles anos perversos de ditadura, então, era fogo! Qualquer coisa que o censor considerasse inapropriado, de mau gosto, que ferisse os princípios da moral e, principalmente, que representasse algum tipo de ameaça à segurança nacional receberia reprovação imediata.”
“Cabeça incomodou muito a censura federal e, em algumas ocasiões, levou seu autor a protagonizar episódios bizarros. “Eu lembro bem que num programa de rádio, o entrevistador, o radialista, me perguntou: ‘Walter, eu gostaria que você me explicasse essa história do Cabeça’. Aí, eu disse: Olha, eu gostaria que as pessoas tirassem as suas conclusões, usando a própria cabeça. Eu não gostaria de explicar nada. No instante seguinte, tiraram a emissora do ar. Me tiraram do ar porque simplesmente eu disse que as pessoas pensassem com a própria cabeça.”
O LP Revolver, de 1976, apresenta outra virada na carreira de Franco. O compositor se aproxima do rock em faixas como Feito Gente, que fez parte da trilha sonora do seriado Os Dias Eram Assim, da Rede Globo.
No álbum seguinte, Respire Fundo (1978), aparece a sua canção mais famosa, Coração Tranquilo. O LP traz outras ótimas canções como Fado do Destino e Lindo Blue.
Em 1979, a sua canção hit, Canalha, ficou em segundo lugar no Festival 79 – É Hora de Cantar,de Música Popular, realizado pela Rede Tupi. Cantada com a voz dilacerada, quase um grito primal, provocava uma catarse coletiva. Tomou sonoras vaias e recebeu tresloucadas críticas.
Os anos se passaram e WF foi sendo jogado pra escanteio. O mercado fonográfico não conseguia encaixá-lo. Passou por períodos de ostracismo, assim como Jards Macalé, Luiz Melodia, Jorge Mautner, Itamar Assumpção e outros gênios chamados de “malditos”, rótulo que todos eles sempre detestaram. WF, ainda assim, foi regravado por Chico Buarque, Titãs, Ira!, Camisa de Vênus e outros nomes conhecidos da música brasileira.
Walter Franco morreu em 2019 vítima de um derrame cerebral.
Pegando uma carona com o poeta Oswald de Andrade (1890-1954), digo: as massas ainda hão de comer os finos biscoitos que ele produziu.
*Com a colaboração do site Poliformismo Perverso
Revisão: Hilário Rodrigues
Colaboração midiática: @rodrigo_chaves_de_freitas
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