TRIÂNGULO MUSICAL: BOB DYLAN, CAETANO E GAL COSTA
CRÔNICAS DA ERA DO ROCK – Rodrigo Leste – E102
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Caetano Veloso é um cara de extremo bom gosto. Quando regrava canções de outros autores sempre garimpa pérolas. Ele as recria imprimindo sua marca registrada. Foi assim com Help, Eleanor Rigby, For no One e Hey Jude, dos Beatles. Caetano também fez remakes de clássicos de Cole Porter e Gershwin. Certamente Bob Dylan não iria escapar do aguçado periscópio de CV que sempre busca belezas em mares nunca dantes navegados. It’s All Over Now, Baby Blue, de BD, foi traduzida, em parceria com Péricles Cavalcanti, como Negro Amor. A letra trata do trágico desfecho de uma relação vivida por uma garota que é abandonada pelo namorado e enxerga seu horizonte como terra arrasada.
Seu namorado já vai dando o fora
Levando os cobertores? E agora?
Até o tapete sem você voou
E não tem mais nada negro amor
E não tem mais nada, negro Amor
Caetano e Péricles, captaram todo o clima dylanesco, achando as palavras certas em português para pintar o quadro boschiano da desilusão vivida pela protagonista da letra. Ouso dizer que a situação apresentada por Dylan dialoga com o filme Sid and Nancy, dirigido por Alex Cox, que trata da vida maluca e arruinada de Sid Vicious, baixista da banda punk Sex Pistols. O músico, na companhia da namorada Nancy Spungen, mergulha profundamente na dependência da heroína, fazendo de suas vidas um coquetel de amor, desespero e extrema porraloucura. Sofrimento e morte, inevitável epílogo.
Vá, se mande, junte tudo que você puder levar
Ande, tudo que parece seu é bom que agarre já
Seu filho feio e louco ficou só
Chorando feito fogo à luz do sol
Os alquimistas já estão no corredor
E não tem mais nada negro amor
Achei que CV tivesse gravado a canção, mas não encontrei nenhum registro. Acho que ele sacou que a boa seria passá-la pra Gal Costa gravar. E foi o que aconteceu. Negro Amor foi lançada no disco Caras e Bocas (1977), um dos grandes álbuns de GC. A canção ganha, na interpretação da Gal, o gosto de ferrugem dos cascos de velhos navios naufragados no porto do desespero e da desilusão. Tragédia contemporânea tão bem desenhada pelo talento de Dylan. A tristeza da cena, descrita pela letra, remete aos quadros do pintor americano Edward Hopper, mestre na arte de retratar o tédio, a desesperança e a ruína da nação que já foi conhecida como a terra das oportunidades.
As pedras do caminho deixe para trás
esqueça os mortos que não levantam mais
o vagabundo esmola pela rua
vestindo a mesma roupa que foi sua
risque outro fósforo, outra vida, outra luz, outra cor
e não tem mais nada negro amor
e não tem mais nada negro amor
e não tem mais nada negro amor
e não tem mais nada negro amor
O triângulo musical se fecha, promovendo um circuito de beleza que me causa arrepios todas as vezes que escuto a canção. Os Deuses da Música dão suas bênçãos e nós, tornando a fazer rodar a bolacha, nos deliciamos com a mágica arte de Dylan, Caetano (com Péricles Cavalcanti) e Gal.
Pitacos e revisão: Hilário Rodrigues
Colaboração midiática: @rodrigo_chaves_de_freitas
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