NEIL YOUNG – buscando corações de ouro na inóspita Amerikkka
CRÔNICAS DA ERA DO ROCK – Rodrigo Leste – E104
Lembra quando maior barato era receber um disco importado trazendo um som deslumbrante como o de Jimi Hendrix? Pois bem, recebi de uma amiga que esteve na Europa dois DVDs sensacionais: um com o show de Leonard Cohen em Londres; ele já bem velhinho cantando suas belas canções com o inexorável apoio de backing vocals pra suprir as notórias deficiências de sua voz. O outro DVD era Heart of Gold, de Neil Young, que trazia uma mistura de diversos shows, além de tomadas com o artista em vários locais e situações.
Me impressionou uma entrevista que NY concedeu dentro de um carro em movimento. Ele não teve papas na língua relatando, na lata, sua angústia em constatar que estava perdendo espaço na cena musical. De maneira simples, Young traçou o mapa de sua carreira artística sem evitar o ladeira abaixo que ela vinha percorrendo com o passar dos anos. Narrou a quase óbvia situação de um artista mais velho que vai perdendo espaço para os mais jovens, sendo jogado para escanteio pelos big shots (tubarões) da indústria americana de entretenimento que se valem da lógica do sucesso e da grana, para fazer o seu jogo de cartas marcadas.
Canadense, naturalizado americano, NY amava o som de Chuck Berry e Little Richard, notadamente, suas maiores influências. Em 1966 baixou em Los Angeles fundando com Bruce Palmer e com Stephen Stills o Bufalo Springfield, uma banda de folk-rock que na época obteve relativo sucesso. Quando o grupo acabou em 1968, Young partiu para a carreira solo. Seus álbuns iniciais, Everybody Knows This Is Nowhere (1969) e o essencial After the Gold Rush (1970) foram aclamados pela crítica. Na ocasião, ele aceitou participar do Crosby, Stills & Nash, como membro efetivo. Acrescido de Young no nome, o quarteto fez muito sucesso nos anos 1969/70, principalmente com o álbum Déjà Vu. Após uma turnê pelos EUA, separaram-se lançando farpas uns contra os outros.
Abro aqui um parêntesis: gostaria que este texto (NY) tivesse sido escrito pelo amigo Rick Bolina (Diniz), compositor e músico da pesada, que sabe tudo sobre NY. Sei que Rick leu, em inglês, todos os livros escritos sobre Young. Aliás, RB, na companhia de outros Diniz: Márcio, Tiago, João Marcelo e um naipe de músicos convidados, compõem a banda Over Neil Young que recria de forma exuberante as canções de NY.
Em 1972 veio o grande sucesso da carreira solo de Neil: Harvest que o projetou como uma big star do folk-rock. A morte de amigos próximos, o desafio constante de ter que fazer sucesso, levaram o artista a uma fase depressiva acompanhada de muito álcool e drogas. A reboque, vieram as pirações e achaques, próprias dos que habitam o panteão do estrelato, onde pululam gigantescas ego trips.
As letras de NY sempre trouxeram grande carga política, com temas e falas que batem direto nos olhos e ouvidos dos podres poderes da Amerikkka. George Bush e outros crápulas receberam disparos poéticos das bem construídas letras de Young:
“Ohio”: trata do massacre perpetrado pela Guarda Nacional americana na Kent State University em 4 de maio de 1970.
“Os soldados de lata e Nixon estão chegando – Tin Soldiers and Nixon Coming,
Finalmente estamos por nossa conta – We’re Finally on Our Own.
Este verão eu ouvi os tambores – This Summer I Hear the Drumming,
Quatro mortos em Ohio – Four Dead in Ohio.
Tem que se abaixar – Gotta Get Down to It
Soldados estão nos baleando – Soldiers Are Gunning Us Down”
“Long Walk Home”: críticas à política externa americana, tratando inicialmente da Guerra do Vietnã.
“Alabama”: Resposta a “Sweet Home Alabama” do Lynyrd Skynyrd, questionando o racismo e a segregação no sul dos EUA, com versos como “What are you doing Alabama?” (O quê você está fazendo, Alabama?).
“Rockin’ in the Free World”: Ironiza o discurso de Bush pai (“mil pontos de luz”) e a máquina militarista, tornando-se um hino de inconformismo.
“Big Crime” / “Already Great”: Canções recentes com ataques diretos a Donald Trump, questionando sua administração e lemas como “Make America Great Again”
“Big Crime”:
“Chega de grandeza
Chega de grandeza
Há muita criminalidade em Washington, D.C., na Casa Branca
Não precisamos de regras fascistas
Não queremos escolas fascistas
Não queremos soldados andando pelas nossas ruas
Há muita criminalidade em Washington, D.C., na Casa Branca
Há muita criminalidade em Washington, D.C., na Casa Branca”
No more great again
No more great again
Got big crime in DC at the White House
Don’t need no fascist rules
Don’t want no fascist schools
Don’t want soldiers walking on our streets
Got big crime in DC at the White House
There’s big crime in DC at the White House
Espero que Neil Young continue procurando corações de ouro mundo afora, contribuindo com sua música para um mundo mais justo e humano.
Aproveito para enviar votos de good (boas) vibes para 2026. Saúde, paz, amor e muito rock and roll!
Neil Young and the Chrome Hearts – Big Crime (chicago sound check)
Pitacos e revisão: Hilário Rodrigues
Colaboração midiática: @rodrigo_chaves_de_freitas
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