Crônica Naná Vasconcelos
Crônicas Musicais

Crônica Naná Vasconcelos

NANÁ VASCONCELOS: “O primeiro instrumento é a voz e o melhor é o corpo”

CRÔNICAS DA ERA DO ROCK – Rodrigo Leste ( rodrigoleste@yahoo.com.br ) – E118

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Assisti a vários shows de Naná Vasconcelos e sempre me encantou sua espontânea simplicidade. Como um displicente maestro, conseguia transformar as passivas vozes da platéia em um ativo e vibrante coral que acompanhava seus comandos. O som do vento e do mar eram reproduzidos por muitas vozes sob a regência do mestre. A alegria do artista contagiava os espectadores, transformando o show num happening (acontecimento) cósmico, envolvido numa capa de humano prazer e deleite.

Naná, cujo nome de batismo é Juvenal, nasceu em Recife, em 1944 e, depois de andar por meio mundo, morreu na sua cidade de origem em 2016. Ainda criança, aprendeu sozinho a tocar instrumentos de percussão. Aos 12 anos, tocando bongô e maraca, integra a banda liderada pelo pai. Mais tarde, ataca como baterista em cabarés e na Banda Municipal do Recife. Em 1967, Naná Vasconcelos mudou-se para o Rio de Janeiro, onde conheceu Milton Nascimento.

Milton diz:

“— Ele bateu à porta da minha casa e falou: ‘Vim do Recife para tocar com você’.” Milton continua contando que ao deixar Naná entrar, o músico começou a fazer “um som incrível com panelas, frigideiras, garrafas e copos.” Com MN, Naná gravou dois discos. Destaque para o antológico Milagre dos Peixes.

Instalado no Sul Maravilha, NV toca com vários artistas e bandas, como Gal Costa, Geraldo Vandré e Os Mutantes. O saxofonista argentino Gato Barbieri (autor da trilha sonora do polêmico filme Último Tango em Paris (1972), de Bernardo Bertolucci), figurinha carimbada no cenário do jazz americano e europeu, abre as portas e caminhos pra NV. O percussionista passa a fazer parte ativa dos grandes eventos que acontecem no mainstream (circuito principal) do hemisfério norte. Naná vive nos Estados Unidos em 1971, depois muda-se para Paris, onde permanece entre 1972 e 1977. Lá grava seu primeiro disco solo, Africadeus (1972). No álbum ele entoa estrofes de maracatu, usando, além da voz, o assobio, estalo de língua, chiado, extraindo ritmos e sonoridades inspirados nos pregões de rua e aboios do Nordeste.

Nos anos 70, NV atuou em projetos ao lado do pianista Egberto Gismonti, do trompetista Don Cherry no grupo Codona (acrônimo formado pelo nome dos componentes do grupo: Collin Walcott, Don Cherry e Nana Vasconcelos), com o qual lançou três discos, e do guitarrista Pat Metheny. Também gravou com o violonista francês Jean-Luc Ponty e com a banda Talking Heads. Tocou ainda com ícones do Jazz como Miles Davis, Art Blakey, Tony Williams, e Oliver Nelson. Com sua percussão, Naná fez shows históricos em Nova York e no prestigiado festival de jazz de Montreaux, na Suíça, encantando público e crítica.

No cinema, o músico trabalhou em trilhas sonoras de filmes nacionais e estrangeiros, entre eles estão: Pindorama, O Menino e o Mundo, Procura-se Susan Desesperadamente, estrelado por Madonna, e Daunbailó, do cineasta Jim Jarmusch.

NV dizia que sua inspiração vinha de duas vertentes: Villa-Lobos (“O primeiro a compreender que os sons estão na natureza,”) e Jimi Hendrix (“Tento fazer com o berimbau o que ele fez com a guitarra”).

Ao lado de Airto Moreira, Naná elevou o patamar da percussão e o reconhecimento veio com os prêmios: venceu oito Grammys de World Music e recebeu a Ordem do Mérito Cultural. NV foi eleito 9 vezes pela revista Downbeat Magazine o melhor Percussionista do Mundo.

Voltando ao Brasil, o artista optou por viver em Recife. Em 2001, produz o primeiro álbum do grupo Cordel do Fogo Encantado e, em 2004, grava com Itamar Assumpção o disco Isso vai dar repercussão. Em 2010, lança Sinfonia e Batuques (2011), em que narra o encontro imaginário entre uma orquestra sinfônica e uma nação de maracatu. Naná Vasconcelos foi mestre de cerimônias do carnaval do Recife durante 15 anos. Atuou como arte educador em projetos de ressocialização pelo ritmo. Sua pesquisa sobre ritmos afro nordestinos inspirou gerações de músicos e consolidou o berimbau como instrumento de palco internacional.

O artista faleceu no Recife no dia 09 de março de 2016, aos 71 anos de idade, devido a complicações causadas por um câncer de pulmão.

Perene o legado de Naná Vasconcelos: tornou-se uma referência mundial na arte da percussão. Sua obra traz a essência da negritude, a exuberância do batuque dos quilombos, a majestade dos sons que remetem à Mãe África com todos os tambores de seus milênios de arte e cultura. Viva Naná!

Naná Vasconcelos na alta do jazz de Nova Iorque

Peguei carona: https://braziljournal.com/nana-vasconcelos-o-percurso-de-um-percussionista

Revisão: Hilário Rodrigues

Colaboração midiática: @rodrigo_chaves_de_freitas

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