Crônica Dominguinhos
Crônicas Musicais

Crônica Dominguinhos

DOMINGUINHOS – O Rei do Forró

CRÔNICAS DA ERA DO ROCK – Rodrigo Leste ( rodrigoleste@yahoo.com.br ) – E120

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Nem todo sanfoneiro leva a vida na flauta, mas, garanto, eu vi Dominguinhos flanando, na maior, na Rua dos Goitacazes, centro de BH, usufruindo do melhor bem viver que um ser humano pode dispor. Era de manhã, ele devia estar hospedado em algum hotel no centro da cidade. Deve ter tomado um bom banho, um bom café da manhã e saiu pra dar um rolê na maior à vontade. Bati o olho e não vacilei, mandei:

— Ei, Dominguinhos! Beleza?

Com aquela sua cara de lua satisfeita, bonachão, ele deu um joinha com o polegar e sorriu.

—Cabra bom! —pensei.

“Abri a porta

Apareci

A mais bonita sorriu

Pra mim”

Com sutil majestade, Dominguinhos pôs em sua cabeça a coroa de Rei do Forró. Quem o indicou como sucessor do Rei do Baião foi o próprio Gonzagão. Antes de morrer, Luiz Gonzaga falou sem papas na língua que D deveria continuar a jornada e não deixar a música nordestina (coco, xote, xaxado, forró, baião) morrer. E o bom Dominguinhos segurou com galhardia a peteca conquistando espaço no Sul Maravilha. É claro que ele não perdeu o contato com a nação nordestina, estava sempre presente nas capitais e no interior, não deixava passar um São João, levando seu bom humor e boa música para todos os lugares.

Pernambucano de Garanhuns, Dominguinhos (1941-2013) era filho de mestre Chicão, tocador e afinador de acordeons de oito baixos, e de Dona Mariinha. Começou a tocar ainda na infância quando formou um trio “Os Três Pinguins”, com dois de seus irmãos. No início, D tocava pandeiro e triângulo, mas ganhou do pai uma sanfona de oito baixos e passou a se dedicar ao estudo do instrumento. Àquela altura, começou a ser conhecido como Neném do Acordeon. Em 1950, com nove anos, Dominguinhos teve um encontro com Luiz Gonzaga que estava hospedado no hotel Tavares Correia em Garanhuns, onde o trio “Os Três Pinguins” estava sempre tocando na porta de entrada.

Luiz Gonzaga ficou tão impressionado com a desenvoltura do menino que o convidou para ir ao Rio de Janeiro. A viagem só se realizou quatro anos depois, quando D e seu pai foram procurar Luiz Gonzaga. Pai e filho passaram 11 dias viajando em um caminhão “pau-de-arara”. Gonzagão os recebeu superbem, deu de presente uma sanfona a D, que foi convidado a frequentar a casa do Rei do Baião e acompanhá-lo em seus ensaios, shows e gravações.

Em 1957, Neném do Acordeom foi rebatizado pelo próprio Luiz Gonzaga com o nome artístico de Dominguinhos. Nesse mesmo ano, fez sua primeira apresentação profissional, acompanhando seu padrinho artístico na música “Moça Bonita”. Entre 1957 e 1958, D integrou o grupo de forró, Trio Nordestino. Em 1958, ao deixar o trio, passou a se apresentar, sozinho, em casas noturnas, bares e também em emissoras de rádios, divulgando suas músicas.

Em 1964, D gravou seu primeiro LP, intitulado “Fim de Festa”. Em seguida, ele gravou outros dois discos. Em 1967 entrou para o grupo de músicos que acompanhava Luiz Gonzaga. Foi numa turnê pelo nordeste que conheceu uma cantora, também pernambucana, Anastácia, conhecida como Rainha do Forró, com quem compôs mais de 200 canções, entre elas, “Eu Só Quero um Xodó”, um de seus maiores sucessos. A parceria e o romance entre os dois durou 11 anos. Quando acabou, Anastácia rasgou retratos e destruiu diversas fitas contendo canções inéditas de D.

Dominguinhos tocou com Gal Costa, Nando Cordel e Elba Ramalho. Com Chico Buarque fez parceria na música Tantas Palavras, lançada em 1984 e cantada pelo próprio Chico. Teve como parceiro Gilberto Gil, nas músicas, Lamento Sertanejo e Abri a Porta. Em 2007 lançou um álbum em dueto com o violão de Yamandu Costa.

Sempre com o seu característico chapéu de couro na cabeça, D se apresentava por todo país, tocando, com sua sanfona, as músicas que o consagraram. O Professor Gustavo Alonso que trabalha em uma biografia de D (me parece que ainda inédita) afirmou: “Dominguinhos trouxe uma feição nova para o gênero do Luiz Gonzaga. A sanfona que ele usou por mais tempo na vida foi um modelo Giulietti, ítalo-americana, que ele comprou usada na Inglaterra.” O professor arremata: “Hoje em dia, todo sanfoneiro quer ter o instrumento igual o do Dominguinhos”.

Dominguinhos lutou durante seis anos contra um câncer no pulmão. Foi internado no Recife, com infecção respiratória e arritmia cardíaca. A pedido da família foi transferido para o Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. Ficou em coma depois de duas paradas cardíacas. Faleceu em julho de 2013, em São Paulo. Foi sepultado no cemitério Morada da Paz, no município de Paulista, na Grande Recife.

Curiosidade: depois do enterro descobriram que Dominguinhos havia feito um pedido numa entrevista que concedeu a uma rádio: queria ser enterrado em sua cidade natal. Assim, seus restos mortais foram transladados para Garanhuns e sepultados no cemitério São Miguel.

Seja como for, esteja onde estiver, é certo que Dominguinhos está fazendo um dueto nas alturas com o grande Gonzaga. Certamente, o forró tá bom demais!

LUIZ GONZAGA E DOMINGUINHOS AO VIVO

Revisão e pitacos: Hilário Rodrigues

Colaboração midiática: @rodrigo_chaves_de_freitas

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