Crônica Cleber Alves
Crônicas Musicais

Crônica Cleber Alves

Pra quem gosta de balançar o esqueleto — VEM AÍ “A GAFIEIRA DO CLEBINHO”

CRÔNICAS DA ERA DO ROCK – Rodrigo Leste ( rodrigoleste@yahoo.com.br ) – E116

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A bem-sucedida trajetória do compositor, instrumentista e professor, Cléber Alves, começa na cidade de Sete Lagoas, onde nasceu. Em casa recebeu influência do seu pai, Zé Ferreira, professor e violinista nas horas vagas.

Clebinho comenta sorrindo:

— Costumávamos acordar ao som de Paganini. Meu pai botava o volume no talo, à la Jimi Hendrix, todo mundo pulava da cama já no gás. No café da manhã ele baixava a bola e punha pra rodar um Mozart, um Vivaldi, pra criar um clima. Nossa casa era feita de livros, discos e papo bom.

Esta prosa com o descontraído Clebinho conta com a participação do multiartista João Diniz, colaborador constante dessas Crônicas da Era do Rock (que abrange todos os gêneros musicais, dado o caráter libertário intrínseco do R&R). Aliás, o bate papo aconteceu na casa do João, uma espécie de reduto de diversas produções +Q1 que engendramos.

Em Sete Lagoas – MG, no ano de 1970, com os seus 17 anos, CA tocava guitarra na banda Terra Seca que se enveredava pelas trilhas do rock. Detalhe: na época o grupo já metia bronca num repertório autoral. As músicas eram de Cléber, com letras de Rogério Pardal, que tocava contrabaixo.

BH entrou no radar do artista que se aventurou a tocar saxofone. Como vários grandes músicos da época, CA foi conhecer a Música de Minas, emblemática escola de música de Belo Horizonte nos anos de 1980, que era capitaneada por ninguém menos do que Mílton Nascimento e Wagner Tiso, além do produtor Cláudio Rocha. A MM possuía um time de professores de alto nível: Juarez Moreira, Mauro Rodrigues, Gilvan de Oliveira, e José Eymard (que ministrava aulas de saxofone) e outros craques.

Bom de prosa, Cléber contou um “causo”:

— “Falei com o José Eymard que eu queria tocar sax soprano, aquele reto que soa mais agudo, como a voz soprano. O Zé falou que era praticamente impossível encontrar esse instrumento em Beagá. Não é que indo na casa de um vizinho que tocava vários saxofones, em Sete Lagoas, encontrei um belo sax soprano encostado na parede! Era um modelo italiano, lindo, que deve ter sido fabricado pelos anos de 30 ou 40. Propus a compra do sax, o cara regateou, o negócio ficou naquele lesco-lesco, até que o sujeito botou o instrumento na minha mão dizendo: ‘toma que é seu!’. E aí, eu vendi minha guitarra pra comprar esse sax.”

Cléber prossegue:

—“Mudei de vez pra BH. Trabalhava num banco pra poder pagar a Escola Música de Minas, morando de favor na casa de uma tia. Não podendo ficar mais lá, eu saí da escola pra poder pagar meu aluguel. Aí, fui chamado pra participar do evento de final do ano da escola (ainda que não fosse mais aluno). Quem me convidou foi Maurinho Rodrigues. O Wagner Tiso perguntou ao José Eymard:“Quem é esse aluno aí do sax?”O Zé falou: “É o Clebinho, mas ele não está mais na escola. Saiu porque não tem grana pra pagar.” AÍ o Wagner Tiso disse: “Chama ele de volta. Dá uma bolsa de estudos pra ele.” Salvou a pátria! O Wagner virou meu padrinho musical. Então, foi lá na Música de Minas que iniciei a minha formação no saxofone. Aliás, a escola era um celeiro de talentos.” Paralelamente à Música de Minas ele estudava teoria e percepção musical com a Professora Eliane Fagiole na Escola de Música da UFMG.

Clebinho conta que Nivaldo Ornelas e Paulo Moura tornaram-se fundamentais no seu aprendizado e evolução musical. “Nos idos anos de 1986/7/8 eu pegava um ônibus em BH e ia ao Rio pra ter uma hora de aula com Nivaldo Ornelas, e cursos de curta duração com o maestro Paulo Moura. Além da aula propriamente dita, recebia do mestre PM uma atenção especial: era sempre convidado para acompanhá-lo nos diversos locais onde ele se apresentava no Rio. E o leque era abrangente: desde espaços refinados até às quebradas onde o artista dava uma canja.”

Em 1989 CA parte para a Alemanha. Em 1991 Ingressa no Curso de Jazz da Universidade de Música de Stuttgart, onde chegava a estudar sax por até 7 horas por dia. Conta que além do curso intensivo de alemão que fazia, aprendeu alemão vendo filmes, pois conseguir uma prosa por lá não era fácil. Apesar da dificuldade de comunicação, lá ele se casou e teve 2 filhos. Nos seus dez anos de Alemanha, CA estudou, tocou em festivais de jazz e trabalhou no correio alemão (para se manter), também gravou dois CDs, Maracatu Temperado (1997) e Saxophonisches Ensemble B (1998).

Voltando ao Brasil em 1999, CA não perdeu sua conexão com a Europa:desde 2001faz turnês regulares na Suíça e na Alemanha.No seu retorno Cleber passou fazer parte ativa do cenário da música instrumental em Minas. Em 2003 CA foi um dos vencedores do Prêmio BDMG Instrumental. Em 2006, também pelo BDMG, foi agraciado com o Prêmio Marco Antônio Araújo de melhor disco instrumental com o álbum Revinda. Impulsionado por essas premiações, CA começou a participar de vários Festivais de Jazz (música instrumental), Gravações e Educação Musical (Masterclass e cursos de curta duração), colaborando assim com grandes nomes da música brasileira, tais como: Toninho Horta, Wagner Tiso, Nivaldo Ornelas, Túlio Mourão, Flávio Venturini, Sellma Carvalho, Carlos Malta, Teco Cardoso, Maria Schneider Big Band, Chico Amaral, Gilvan de Oliveira, MG Big Band, Sérgio Santos, entre outros.

Em março de 2010, concursado, ingressou como professor efetivo da habilitação em Música Popular na Escola de Música da UFMG, iniciada em 2009 pelo projeto Reunisistematizado do maestro Professor Mauro Rodrigues.

Passo a bola pro Clebinho:

— “Ao voltar da Alemanha encontrei a cena musical de BH diferente. Ao contrário das gerações anteriores de músicos, que se mandavam pro Rio ou São Paulo em busca de espaço, importantes artistas optaram por ficar aqui. Este é o caso do grupo de rock Skank, ou de Juarez Moreira (um dos caras mais importantes da música instrumental mineira). Enfim, o pessoal dos anos 2000 acreditava que podia se dar bem morando em Beagá.“

Fazendo a ponte Brasil-Alemanha (e outros países da Europa), CA produziu bastante. Gravou os álbuns “Revinda” (2005), “Ventos do Brasil” (2011) e “Cléber Alves Quarteto ao vivo no Bird‘s eye” (gravado em Basel,Suíça, em 2015).

Querendo iniciar seu doutorado (2015), CA recebeu de seu mestre Nivaldo Ornelas a sugestão de escrever sobre Paulo Moura. Ele escolheu o desenvolvimento de PM no Beco das Garrafas (RJ). A tese foi concluída em 2019 no programa de Pós-graduação em música da Escola de Música da UFMG. “PAULO MOURA E A BOSSA NOVA INSTRUMENTAL – Análises e reflexões sobre práticas interpretativas e arranjos (1968-1969). A tese foi publicada pela editora Appris no formato de livro com o título, “A BOSSA NOVA INSTRUMENTAL – O Samba Jazz pelo olhar de Paulo Moura”.

Além de seu trabalho autoral com o Cléber Alves Quarteto, os seus novos projetos continuam contemplando a obra de Paulo Moura. Baseado nos álbuns Confusão, Urbana, Suburbana e Rural (1976) e Gafieira, Etc e Tal (1986) ele pretende lançar algo que pode ter o título de “A Gafieira do Clebinho” (sugestão de João Diniz), som que já vem desenvolvendo com o sexteto composto por Ulisses Luciano (trumpete), Danilo Mendonça (trombone), Igor Neves (piano), Pablo Souza (baixo), Limão Queiróz (bateria) e Cléber Alves (sax alto e soprano).

Cléber dá a pala:

— “No livro de Mário de Andrade, Pequena História da Música, ele (Mário) falava que a música é percebida em três estágios: pode ser no corpo de uma pessoa, música que é feita pra se sentir na pele(que dá vontade de dançar), a música do coração (que você lembra de uma pessoa, ou de um lugar), e a música da cabeça, que atinge o intelecto. Esse é o lance da gafieira, música pra pele. No palco mesmo eu costumo lembrar aos outros músicos uma fala do mestre Paulo Moura: ‘A pista de dança tá cheia? Então o som tá bom.’ E vamos lá, tocando pro pessoal dançar. Pretendo descolar um espaço, já tenho alguns em vista,pra fazer com que o som da gafieira seja pretexto pras pessoas saírem pra dançar. Aguardem que vem aí!”

PS – esta crônica foi produzida com a colaboração de Cléber Alves e João Diniz.

CLÉBER ALVES: BAIÃO I | SBHI 2023 –

Revisão: Hilário Rodrigues

Colaboração midiática: @rodrigo_chaves_de_freitas

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