O MAIS MUTANTE DOS MUTANTES: o mítico ARNALDO BAPTISTA
CRÔNICAS DA ERA DO ROCK – Rodrigo Leste – E103
Estando em Juiz de Fora, certa noite fui assistir a um espetáculo na antiga Fábrica Mascarenhas. O local, no centro da cidade, foi reformado, tornando-se um importante centro cultural. Se eu disser o nome da peça que fui ver será puro chute. Acho que devia ser uma comédia, mas não consigo me lembrar do título. Estava sozinho. Quando soou o terceiro sinal pra iniciar a apresentação surgiu um casal e sentou-se bem do meu lado. Olhei pro cara e logo reconheci: o mítico Arnaldo Baptista, o mais irreverente mutante do Brasil.
Já assisti a vários shows dos Mutantes, em diferentes cidades. Sempre curti muito o excelente som e a performance da banda que, junto aos Novos Baianos, é, para mim, o suprassumo da criatividade musical brasileira. É bom lembrar que Arnaldo é multi-instrumentista e domina o piano, o contrabaixo, o violão e instrumentos exóticos como o Theremin (criado por Leon Theremin em 1920). Trata-se de um instrumento mágico que transforma o movimento das mãos, no ar, em melodias etéreas.
Voltando ao teatro em JF, até então nunca havia estado tão perto de um mutante quanto naquela noite. Sabia que Arnaldo morava em Juiz de Fora com a sua companheira e guardiã, Lucinha. Sim, eu disse guardiã, porque AB é um cara que requer cuidados especiais. Lenda ou não, o artista sofreu graves abalos que comprometeram sua saúde física e mental. Um véu de mistério envolve os episódios vivenciados por AB, sugerindo que não é de bom tom levantar essa lebre. De qualquer forma, no oceano da internet é possível fisgar informações e versões diversas de tais acontecimentos.
Mais engraçada do que a comédia que se desenrolava no palco, eram as risadas do Arnaldo que, com a inocência de uma criança, se manifestava de forma espontânea e quase desenfreada. Ria à beça, às vezes até nos momentos em que a encenação sugeria reflexão ou algo assim. Não chegava a incomodar, mas era estranho estar ao lado de alguém que não fazia uso do freio de mão mental para conter os seus impulsos. Lembrei da letra da Balada do Louco que fazia todo o sentido ali naquele momento:
Dizem que sou louco por pensar assim
Se eu sou muito louco por eu ser feliz
Mas louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz
Se eles são bonitos, sou Alain Delon
Se eles são famosos, sou Napoleão
Mas louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz
Eu juro que é melhor
Não ser o normal
Se eu posso pensar que Deus sou eu
Entrei na vibe de AB e passei a curtir muito mais a encenação. Quando o espetáculo terminou, olhamos um para o outro e, sem palavras, nos despedimos sorrindo. Depois desse episódio trombei com Arnaldo em diversos locais em BH, cidade onde ele passa algumas temporadas. Já estive com ele na pista de caminhada no alto das Mangabeiras.Fui numa vernissage de pinturas (AB também é pintor. Como era de se esperar suas telas são psicodélicas) dele em uma galeria no Shopping Ponteio, além de encontrá-lo duas ou três vezes na Asa de Papel. Sempre AB parece estar numa boa, socializa à moda dele, quer dizer: de maneira descontínua. No meio de um papo solta umas tiradas, falando de músicos, músicas e sempre dá um jeito de mencionar LSD. Gosta de comer doces (inclusive é chegado em pizza doce), curte morangos (Strawberry Fields Forever?) e não liga se alguém o chama de Loki.
Se eles têm três carros, eu posso voar
Se eles rezam muito, eu já estou no céu
Mas louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz
Eu juro que é melhor
Não ser o normal
Se eu posso pensar que Deus sou eu
Sim sou muito louco, não vou me curar
Já não sou o único que encontrou a paz
Mas louco é quem me diz
E não é feliz, eu sou feliz
Sem lenço nem documento, Arnaldo não precisa provar nada. Sua magnífica obra fala por si. O mundo dá suas voltas, a música que se produz hoje, na minha opinião, passa longe da excelência criativa daqueles garotos mutantes que aos 18, 19 anos, tendo o importante apoio do maestro Rogério Duprat, realizaram o que temos de melhor em termos de música popular. Viva Arnaldo Baptista, a alma dos Mutantes!
ARNALDO BAPTISTA “A melhor entrevista da minha vida.” (Canal Daniella Zupo)
Colaboração no texto: João Diniz
Pitacos e revisão: Hilário Rodrigues
Colaboração midiática: @rodrigo_chaves_de_freitas
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