Crônica Summer of Love
Crônicas Musicais

Crônica Summer of Love

SUMMER OF LOVE – Paz, amor, gentileza e alto-astral eram palavras de ordem

CRÔNICAS DA ERA DO ROCK – Rodrigo Leste ( rodrigoleste@yahoo.com.br ) – E123

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Quando rolou o Summer of Love (Verão do Amor) tudo parecia que ia dar certo e poderíamos viver num mundo melhor. Paz, amor, gentileza e alto-astral eram compartilhados numa cidade mágica: San Francisco, Califórnia. O mundo careta, materialista, repressivo, do american way of life (estilo americano de vida) estava sendo atropelado pela moçada que propunha um mundo comunal, livre de preconceitos, rompendo com os padrões capitalistas e protestando com suave rigor contra a famigerada Guerra do Vietnã.

Estamos no ano de 1967, no Golden Gate Park, em San Francisco, mais de 40.000 pessoas participam do Human Be-In. O termo “Be-In” faz referência a “estar junto” ou “sentar e ser” (uma prática de meditação da época). Traz também os protestos pacíficos chamados sit-ins (sentar e resistir). O evento conta com discursos de grandes ícones da contracultura, como Timothy Leary (um ex-professor de psicologia de Harvard demitido por distribuir LSD a estudantes) que lá lançou o famoso lema “ligue-se, sintonize-se, desligue-se”; poetas como Allen Ginsberg e Gary Snyder, além de bandas lendárias como o Grateful Dead e o Quicksilver Messenger Service. O ativista Owsley “Bear” Stanley oferecia grandes quantidades de seu LSD “White Lightning” para a multidão reunida.

O Human Be-In deu início ao Verão do Amor, que apresentou o estilo de vida hippie e o termo “psicodélico” ao público americano comum. O bairro de Haight-Ashbury transformou-se no coração da contracultura. Lá, grupos como os Diggers organizaram iniciativas comunais para sustentar a grande massa de recém-chegados, criando lojas e clínicas médicas gratuitas. O estilo de vida também incluía o uso de drogas psicodélicas, como o LSD, mescalina e a maconha, ferramentas para a “expansão da mente”. Heroína e outras drogas barra pesada, inclusive o álcool, não faziam parte do cardápio.

Sexo, drogas e rock and roll. Flores no cabelos, despojamento, desapego, uma postura pacifista que se contrapõe à tal “violência que é tão americana quanto a torta de maçã”. O movimento hippie teve duas origens principais: os estudantes universitários começaram a se manifestar contra o racismo e se opunham ao recrutamento forçado de jovens para lutar na Guerra do Vietnã . O movimento hippie foi também influenciado pela ” Geração Beat “, capitaneada por escritores como Jack Kerouac, William Burroughs e o poeta Allen Ginsberg.

O escritor Ken Kesey , autor de Um Estranho no Ninho (1962), organizou o primeiro dos muitos “testes de ácido” de São Francisco em 1965. Os participantes pagavam uma pequena taxa e recebiam LSD enquanto músicos tocavam longas canções improvisadas. Em janeiro de 1966, o Grateful Dead se apresentou para 2.000 pessoas em um teste de ácido que contou com uma banheira de bebê cheia de ponche com LSD.

As autoridades conservadoras de SF contra-atacaram: criaram mecanismos para evitar que novos jovens viajantes se estabelecessem ali. Os vereadores aprovaram resoluções condenando os hippies, o secretário municipal de transportes tentou isolar o bairro de Haight-Ashbury, e os editores do jornal “San Francisco Chronicle” trataram os recém-chegados como invasores, publicando manchetes que os retratavam como criminosos. A polícia aplicava as leis de vadiagem, procurava por fugitivos e realizava batidas para intimidar a moçada. Os recém-chegados encontravam comida e abrigo onde podiam, dormindo no chão e aproveitando os eventos gratuitos organizados por grupos como os Diggers. Esse grupo idealista abriu a Free Store, onde os necessitados podiam obter suprimentos gratuitamente. Assim como os Diggers, outros hippies assumiram responsabilidades onde as autoridades de San Francisco falharam: começaram a cuidar da limpeza das ruas, criaram também uma linha telefônica chamada “HIP” para ajudar a localizar pessoas perdidas e para prestar serviços de emergência.

No final de 1967 a polícia aumentou sua presença em Haight-Ashbury, realizando frequentes batidas em residências da região. Membros da banda Grateful Dead foram presos por posse de drogas. O bairro foi sendo abandonado pelos hippies, dando lugar aos criminosos e traficantes que ali permaneceram. Nesse contexto surgiu a nefasta figura de Charles Manson (mentor da chacina que vitimou a atriz Sharon Tate e mais 4 pessoas (em 1969)), que começou a atrair seus primeiros seguidores. Gangues criminosas invadiram o antigo reino de paz e amor. O “amor livre” tornou-se um pretexto para estupro. Os índices de criminalidade dispararam, com assassinatos e roubos se tornando comuns. O desencanto pairou como estranha neblina bloqueando o sol do verão.

Apesar dos pesares, o êxito do SL pode ser medido através de bem-sucedidos eventos que vieram no seu rastro: os festivais de Monterey, California (1967) e Woodstock, NY (1969). O espírito Flower Power (Poder da Flor) do Summer of Love esteve presente nas duas atividades. O Festival de Monterey, que teve um público de 200 mil pessoas, contou com a presença de Ravi Shankar e entrou para a história por marcar a estreia explosiva de Jimi Hendrix e consagrar Janis Joplin. Já o Festival de Woodstock (Três Dias de Paz, Amor e Música) passou a ser considerado o clímax da contracultura. Teve um público de 400 mil pessoas. Contou com a participação de grandes músicos como: Santana, The Who, Joan Baez, Crosby, Stills, Nash & Young, Janis Joplin, Jimmy Hendrix e Jefferson Airplane. Entendo que Woodstock é da maior importância para a humanidade, tão grande quanto o Dia D.

O pessoal que tinha cerca de 20 anos de idade quando participou do Summer of Love, agora deve estar com 80 anos ou mais e assiste a ruína do sonho americano (agora pesadelo), pilotado pelo louco do topete alaranjado. Ódio, discriminação, desigualdades cada vez mais acentuadas, baixo-astral geral, um cenário que remete ao mundo doente, drogado, desesperançado mostrado pela série Breaking Bad (Chutando o Balde). “That’s alright, ma, I’m only bleeding” (Tudo certo, mãe, eu só estou sangrando), como disse Bob Dylan. Sobram as belas memórias dos dias lindos vividos no Summer of Love.

60 anos depois, a letra da música continua no ar; lembre-se: “se for a San Francisco não se esqueça de pôr flores no cabelo” ( Scott McKenzie )

”the summer of love 1967 ” – t.v.documentary

Revisão: Hilário Rodrigues

Colaboração midiática: @rodrigo_chaves_de_freitas

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