Crônica Astor Piazzolla
Crônicas Musicais

Crônica Astor Piazzolla

ASTOR PIAZZOLLA – o “assassino do tango”

CRÔNICAS DA ERA DO ROCK – Rodrigo Leste ( rodrigoleste@yahoo.com.br ) – E122

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Reza a lenda que Astor Piazzolla (1921-1992) não era muito bem visto e nem benquisto por seus compatriotas argentinos. Chegou até a receber a pecha de mau caráter. Foi muitas vezes insultado nas ruas de Buenos Aires. Um taxista o acusou de ser o assassino do tango e se negou a deixar que ele entrasse no táxi. Estas passagens foram narradas por sua viúva, Laura Escalada. Ela arremata:

— “Não, era um homem muito doce, terno, muito tímido. Acontece que todos temos um caráter áspero quando apanhamos.”

No centenário do seu nascimento (2021), essa raiva se transformou em amor. Buenos Aires prestou todas as homenagens possíveis a esse argentino criado em Nova York que reinventou a música popular portenha.

Nascido em Mar del Plata, na Argentina, Piazzolla viveu parte da juventude em Nova York, onde teve contato com o jazz e a música clássica. Ele aprendeu a tocar bandoneon aos 6 anos de idade e, mais tarde, aperfeiçoou suas técnicas de composição estudando com grandes mestres em Paris. Suas inovações inicialmente causaram polêmica na cena tradicional do tango, mas o consolidaram como um dos maiores gênios musicais do século XX.

Em 1934, Carlos Gardel já era Gardel, uma divindade. O rei do tango estava em Nova York, e o pai de Astor quis lhe presentear com umas peças de madeira entalhada que ele mesmo fabricava. Mandou o filho fazer a entrega. Obviamente, o segurança de Gardel barrou o acesso dele à suíte do astro. “Como era malandro, Astor subiu pela escada de incêndio e entrou pela janela”, conta Laura Escalada. Gardel achou o moleque uma graça. Astor falava inglês perfeitamente, e Gardel o usou como tradutor. Deu-lhe um pequeno papel no filme El Día Que Me Quieras. Ouviu-o tocar o bandoneon. “Você será grande, mas o tango você toca feito um galego”, comentou. E finalmente o convidou a participar de sua próxima turnê pelas Américas. Vicente, o pai de Astor, recusou, porque o garoto tinha apenas 13 anos. Coisas do destino: Carlos Gardel e todos os seus acompanhantes morreram nessa turnê ― o avião em que viajavam caiu em Medellín, na Colômbia, em 24 de junho de 1935.

AP voltou à Argentina, em 1936, passou a tocar em conjuntos de tango, até encontrar uma vaga no principal grupo da época, a orquestra de Aníbal Troilo. Cinco anos mais tarde, passou a estudar composição com Alberto Ginastera, que lhe apresentou a música de Stravinsky, Bartók e Ravel. Escreveu um prelúdio para violino e uma suíte para cordas. E, pouco depois, partiu para Paris, onde foi aluno de Nadia Boulanger.

Em 1955, ele fundou o Octeto Buenos Aires, que tinha um violão elétrico em sua formação, e introduziu elementos ligados ao jazz, ao folclore e à música clássica em suas composições. Era o Novo Tango, que daria ao mundo obras como Adios Nonino e Libertango.

A música de Piazzolla gerou na Argentina receios, inveja e admiração entre a comunidade tangueira. Suas composições foram alvo de fortes críticas e muitos se recusaram a chamar o que AP produzia de tango. Ironicamente, ele chegou a denominar seu estilo de “música popular contemporânea da cidade de Buenos Aires”. Mas isso não era tudo: AP provocava a todos com sua vestimenta informal (não usava o tradicional terno), com sua pose para tocar o bandoneon (de pé, quando a tradição era a de tocar sentado) e com declarações que mais pareciam desafios.

A obra-prima de Piazzolla, segundo sua própria opinião, foi Adiós Nonino, um emotivo réquiem escrito em 1959 em memória à morte de seu pai, a quem chamava carinhosamente de Nonino (vô em italiano). Entre suas composições mais célebres também se encontram Libertango, Fuga y Misterio, Decarísimo, Milonga Del Ángel, La Muerte Del Ángel, Balada Para un Loco, Oblivion, Buenos Aires Hora Cero, além de peças representando as quatro estações portenhas.

Astor Piazzolla se manteve ativo, com apresentações em diversos países, até sofrer um AVC em 1990. Ele morreu dois anos depois, em 4 de julho de 1992. O bandeonista deixou 3 mil composições (sendo que cerca de 500 gravadas) e um legado que influenciou músicos na Argentina e em outros países.

A violonista venezuelana radicada no Brasil Carla Rincon coloca Astor Piazzolla no patamar de outro gênio da música do continente: Heitor Villa-Lobos. “Piazzolla, assim como Villa-Lobos, foi um revolucionário em seu país e no mundo. De coração, digo: entre Piazzolla e Villa-Lobos, temos muito que nos orgulhar da música latino-americana”.

Astor Piazzolla y su Quinteto Tango Nuevo – Utrecht, Países Bajos. 1984

PEGUEI CARONA:

Astor Piazzolla (1921-2021): cem anos do revolucionário do tango

Astor Piazzolla: 100 anos do bandeonista que revolucionou o tango

Revisão: Hilário Rodrigues

Colaboração midiática: @rodrigo_chaves_de_freitas

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