LUIZ CARLOS MACIEL – o Guru da Contracultura no Brasil
CRÔNICAS DA ERA DO ROCK – Rodrigo Leste ( rodrigoleste@yahoo.com.br ) – E121
Postem seus comentários
Numa de minhas muitas idas ao Rio de Janeiro na década de 1970 tive a oportunidade de ir à casa do grande jornalista Luiz Carlos Maciel, ícone da contracultura no Brasil. Fui recebido no maior sem cerimônia. Na sala, sentados sobre almofadas no chão, um monte de malucos proseava, fumava uns beques, ouvia música. A namorada do Luiz, uma morena faceira, estava com uma blusinha e só de calcinhas, muito à vontade. Maciel era todo sorrisos, me deu uma gozada quando peguei um LP que não era de sua preferência.
Falou:
— Entre tantos discos geniais você vai pegar logo esse (risadas gerais).
Meio encabulado, deixei o álbum de lado e peguei um do The Doors, recebi a aprovação geral da galera. Puseram a bolacha pra rodar e Light My Fire entrou nos nossos ouvidos.
O gaúcho LCM (1938-2017) foi filósofo, escritor, jornalista e roteirista. Colaborava no jornal O Pasquim, assinando a coluna “Underground”, foi diretor da edição nacional da revista Rolling Stone e passou também pelo Jornal do Brasil e pela Revista Veja. Na imprensa alternativa foi um dos editores do jornal Flor do Mal. Em 2003, Maciel publicou o livro O poder do Clímax – Fundamentos do Roteiro de Cinema e TV, relançado em 2017. Foi diretor da Escola de Teatro da Universidade de Salvador.
“Tudo aquilo que sacudiu o mundo nas décadas de 60 e 70 foi intensamente analisado por ele, preconizado por ele, que sempre expôs essa visão com efervescente e latejante força vital”, escreveu Jorge Mautner.
Segundo o jornalista Bruno Zambelli: “Maciel foi filósofo de formação, teatrólogo por opção e destino, inquieto por natureza e guerreiro por vocação. Homem de múltiplos talentos, transitou por diversas áreas artísticas, sempre com criatividade e potência.”
Caetano Veloso se refere a LCM assim: “Foi a grande figura de uma nova esquerda brasileira e um homem de sensibilidade fina e lucidez serena.”
LCM publicou os livros “Samuel Beckett e a Solidão Humana”; “Sartre, Vida e Obra”; “Nova Consciência”; “A morte Organizada”; “Anos 1960”; “Geração em Transe, Memórias do Tempo do Tropicalismo”; “As Quatro Estações” e “Negócio Seguinte”.
No ano de 1960, com bolsa de estudos da Fundação Rockefeller, estudou direção teatral e realização de roteiros no Carnegie Institute of Technology, em Pittsburgh, nos EUA.
Em 1963 retornou ao Brasil, indo residir em Salvador, onde trabalhou como professor, e depois diretor, da Escola de Teatro da Universidade de Salvador. Na época, dirigiu diversas montagens teatrais. No ano posterior, em 1964, transferiu-se para o Rio de Janeiro, passando a lecionar artes dramáticas no Conservatório Dramático Nacional.
Em 1967 participa do processo de criação de O Rei da Vela, de Oswald de Andrade, pelo Teatro Oficina, ministrando laboratórios de improvisação com os atores. Em 1968, no Teatro Jovem, dirige Barrela, primeira peça escrita por Plínio Marcos, cujo texto é censurado no dia da estréia.
Em 1970, foi preso pelo regime militar e pegou dois meses de cana na Vila Militar.
Em 1984 dirigiu a peça “Flávia, Cabeça, Tronco e Membros”, de Millôr Fernandes. Neste mesmo ano dirigiu a cantora Gal Costa no show “Baby Gal”.
Em 1991 dirigiu as peças “Brida”, de Paulo Coelho e “Boca Molhada de Paixão Calada”, de autoria de Leilah Assumpção.
Luiz Carlos Maciel morreu em 9 de dezembro de 2017, vítima de falência múltipla de órgãos. Ele tinha 79 anos. Antes de falecer, foi consultor da série “Os Dias Eram Assim” (2017), da TV Globo, que tinha os anos da ditadura como pano de fundo da trama.
Em 2022, o jornalista Claudio Leal lançou Underground, obra que reúne textos de Maciel publicados na imprensa entre 1959 e 2018. Boa parte dos escritos foi produzida no período em que o filósofo, escritor, jornalista e roteirista comandou a coluna de mesmo nome no O Pasquim.
Underground traz temas e autores que eram, até então, desconhecidos no Brasil: Alan Watts e seu zen-budismo, a descoberta do LSD e as experiências psicodélicas descritas por nomes como Timothy Leary e Ken Kesey, sem esquecer do diálogo proposto com escritores como Norman Mailer, Hermann Hesse, Carlos Castaneda e Martin Heidegger. Os precursores de tudo, Jean-Paul Sartre e Karl Marx, também nunca saíram de cena. Ao contrário: foram sempre reinterpretados à luz das novas leituras e experiências.
Hippies, beatniks, Tropicália estarão sempre ligados ao nome de Luiz Carlos Maciel, o Guru da Contracultura no Brasil.
LUIZ CARLOS MACIEL
ENCONTRO MARCADO COM A ARTE
Revisão: Hilário Rodrigues
Colaboração midiática: @rodrigo_chaves_de_freitas
Perfil Cultural Caleidoscópio: siga @caleidoscopiobh
Para ler mais crônicas, acesse: https://caleidoscopio.art.br/category/cultural/cultural-musica/cronicas-musicais/
