JORGE BEN JOR – CHARLES ANJO 45 não é Carlos Lamarca
CRÔNICAS DA ERA DO ROCK – Rodrigo Leste ( rodrigoleste@yahoo.com.br ) – E116
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A incompetente censura da ditadura militar encasquetou que o Charles Anjo 45 de Jorge Ben (o sobrenome Ben Jor, veio em 1989) era uma homenagem ao guerrilheiro Carlos Lamarca. Desfazer o equívoco deu um trabalhão danado ao compositor. Enfim, a canção pôde ser lançada em 1969.
A letra de Charles Anjo 45 de Jorge Bem Jor pode ser entendida como um tratado de antropologia contemporânea. Todo o emaranhado das relações existentes em um morro do Rio de Janeiro estão presentes nos visionários versos escritos por Jorge em 1969. Na época as facções ainda não dominavam as comunidades. Há indícios de que o CV surgiu em 1979 no presídio da Ilha Grande. Detentos comuns conviveram com presos políticos no período da ditadura militar, aprendendo técnicas de organização e mobilização. O grupo chamou-se inicialmente Falange Vermelha e, em 1979, foi rebatizado como Comando Vermelho (CV).
Portanto, em 1969 os traficantes ainda não tinham o poder que têm hoje, mas os “malandros otários” deram um “golpe de estado”, derrubando a hegemonia de Charles Anjo 45 (bandido “gente boa” que andava armado com uma pistola 45) que governava o morro com bran/dura (não espere moleza nessas quebradas!) fazendo do local um pedaço do céu.
“Charles, Anjo 45
Protetor dos fracos
E dos oprimidos
Robin Hood dos morros
Rei da malandragem
Um homem de verdade
Com muita coragem
Só porque um dia
Charles marcou bobeira
Foi sem querer tirar férias
Numa colônia penal…”
Segundo a Rádio Cultura Black:
“Charles Anjo 45 é Charles Antônio Sodré, um personagem que Jorge Ben conheceu na região da Tijuca e do Rio Comprido, bairros no Rio de Janeiro onde o cantor viveu parte de sua infância.
Essa informação aparece em uma entrevista para a revista Veja em 1970, em que Jorge diz que Charles é um amigo de infância. Não foi possível encontrar mais informações sobre o Charles real, mas segundo o cantor, o personagem da música era filho de português e tinha 28 ou 29 anos naquela ocasião.
“É um cara que por motivos diversos aos meus se meteu em bobagem. Bobagem, não sei, ele tava na dele… O Charles tinha mil coisas, tinha ponto de bicho, tinha boca de fumo, mas é um cara bacana, sensacional, pô. Ele foi preso por causa de uma [arma calibre] 45. Ele usava 45, depois é que ele foi preso, condenado”, afirmou Jorge. (1970)
Em entrevista ao Roda Viva, da TV Cultura, em 1995, Jorge Ben voltou a comentar sobre Charles Anjo 45. Como canta na música, ele disse que o personagem era um “anjo” porque, “quando ele chegava, tudo ficava bem”.
“Foi uma homenagem ao malandro que eu conheci, que era o Robin Hood, na época, dos morros. E ele sempre tinha que voltar pros morros. Quando ele voltava pro morro, a paz voltava pro morro. Quando não tava no morro, era tudo que eu cantei na música.” (Jorge Ben ao Roda Viva, da TV Cultura, em 1995)
Já as milícias no Rio de Janeiro começaram a se formar de maneira estruturada no final dos anos 1970 e início dos anos 1980, tendo como marco inicial a região de Rio das Pedras, na Zona Oeste da cidade. Elas surgiram a partir de grupos de extermínio formados por policiais e agentes de segurança pública.
Inicialmente, por agirem como uma “justiça paralela” que expulsava bandidos, ganharam a simpatia e a tolerância de parte da população e de autoridades da época, que viam o movimento como uma forma de conter o crime na ausência do Estado.
Com o tempo, esses grupos passaram a cobrar taxas compulsórias de “segurança”. O modelo evoluiu para o monopólio e a extorsão de serviços essenciais nas comunidades, como distribuição de gás, TV a cabo clandestina, transporte alternativo e internet. Envolvem com seus tentáculos autoridades civis e militares, nadando de braçada num lodaçal de corrupção e impunidade.
Nesse universo perverso da criminalidade “cangaço novo” e os cibercrimes high tech, Charles poderia ser visto como um mascote da bandidagem, um ingênuo romântico, herói de capa e espada combatendo facínoras armados de artilharia de grosso calibre. Se estivesse presente nos campos de batalha dos dias de hoje seria exterminado como kafkiana barata sem direito à sobrevida ou metamorfose.
Pra fechar, tratando da canção Charles Anjo 45 na sua essência melódica/poética/musical, gosto muito da versão de Caetano Veloso, acompanhado pelos falsetes vocais e o violão de Jorge Ben Jor, gravada em 1969.
Caetano Veloso e Jorge Ben Jor – Charles, Anjo 45 (Jorge Ben)
Peguei carona em:
Link: Get On Up Official Trailer #1 (2014) – James Brown Biography HD
Revisão: Hilário Rodrigues
Colaboração midiática: @rodrigo_chaves_de_freitas
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Para ler mais crônicas, acesse: https://caleidoscopio.art.br/category/cultural/cultural-musica/cronicas-musicais/
