MOONDOG – o Viking da 6ª Avenida
CRÔNICAS DA ERA DO ROCK – Rodrigo Leste – E107
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Estive por duas vezes em NY. Na primeira, há um tempão, com menos de 18 anos, parei por uns 3 dias na cidade, pra depois seguir de ônibus para Ann Arbor, Michigan. O destaque nessa primeira ida foi ver uma manada de malucos correndo nas ruas da Grande Maçã, seguindo na direção do Madison Square Garden, onde iria acontecer o antológico Concerto Para Bangladesh, promovido por George Harrison e Ravi Shankar.
Da segunda vez, também há tempos, passei lá duas semanas bem aproveitadas. Andei pra baixo e pra cima, conheci algumas pessoas, assisti a um belo show de David Crosby e comprei um conjunto de microfones auriculares para o grupo de teatro que eu tinha na época.
Me lembro claramente de uma parada: no metrô, uma mulher negra muito descolada e bonita me deu o maior mole. Me encarou firme, num flerte fatal. Não encarei a proposta. Rolava um papo, na época, que esse tipo de abordagem era um xaveco da polícia de NY, uma detetive disfarçada, isca de polícia, como diria Itamar Assumpção. Seria enquadrado por assédio. Poderia dar BO. “Chapéu de trouxa é marreta!”, pensei com os meus botões e saí de fininho.
A mítica New York já foi cantada muitas vezes em verso e prosa. Vários filmes têm a cidade como protagonista. Num deles, Crônica de uma Certa Nova York, (Joe Gould’s Secret, 2000), um malucão, morador de rua e escritor, chamado Joe Gould, coletava e anotava conversas e histórias que ouvia nas ruas de NY.
Seu objetivo era produzir uma obra monumental chamada “A História Oral de Nossos Tempos”. Tipos excêntricos como Joe, pululam na Grande Maçã, a mais cosmopolita das cidades do mundo. Cheguei a ver de relance algumas dessas figuras nas minhas andanças no Soho, no Lower East Side e em Greenwich Village.
Dentre os quase surreais personagens que percorriam a cidade, um tinha lugar de destaque: Moondog (Cachorro da Lua), compositor, intelectual, poeta e morador de rua. Seu nome era Louis Thomas Hardin (1916–1999). Durante trinta anos, um “viking” cego, armado com uma lança de aço de quase dois metros, um chapéu de couro com chifres e uma longa barba rala, ocupava o seu posto na Sexta Avenida.
Lá ele montava sua coleção de instrumentos caseiros e ficava parado, placidamente, por oito horas, como uma antiga estátua humanizada. Em meio às buzinas estridentes, pneus cantando e o fluxo frenético de pedestres de Manhattan, o gigante cego batia suavemente em seu tambor, anunciando seus produtos — uma coleção de álbuns e poemas manuscritos — a qualquer interessado.
Um acidente com um explosivo caseiro o cegou aos 16 anos. Em 1943 Moondog mudou-se para NY. Ele era um compositor autodidata, dominava diversos instrumentos e inventou vários próprios, como o trimba, um instrumento de percussão triangular.
Misturava influências de música clássica (como Bach) com jazz, ritmos tribais e sons urbanos. Conhecido como o Viking da 6ª Avenida, tornou-seum ícone da contracultura e precursor do minimalismo. Chegou a se apresentar na Europa e veio a falecer na Alemanha.
Apesar de viver na rua, Moondog tinha um círculo de amigos na cena musical e artística de NY. Leonard Bernstein, Charlie Parker e Philip Glass faziam parte desse círculo. Aqueles muitos que o olhavam com descaso, julgando ser apenas mais um velho tresloucado a tocar para receber uns trocados, mal sabiam que o artista já editara discos com grandes gravadoras como a Prestige e a Columbia.
A arte e a personalidade única de Moondog inspiraram linhas de moda, documentários e, claro, música. Seu trabalho ainda hoje é sampleado por artistas e às vezes pode ser ouvido em comerciais.
A memória de Moondog também permanece viva nas impressões duradouras que ele deixou nas pessoas que encontrou nas ruas . “Sem dúvida, ele foi a pessoa de rua mais famosa de sua época, um herói para uma geração de hippies”, disse o biógrafo de Moondog, Robert Scotto, ao New York Times.
Em tempo: o amigo Hilário Rodrigues, atento revisor dessas crônicas, me mandou essa: “Nem preciso te dizer que (Moondog) me remeteu ao nosso Bruxo (Hermeto Pascoal)”. Concordo plenamente.
Quem quiser saber mais sobre Moondog pode assistir, A Brief History of Moondog (A Breve História de Moondog (Cachorro da Lua))
peguei carona em: https://www.untappedcities.com/moondog-viking-6th-avenue/
Pitacos e revisão: Hilário Rodrigues
Colaboração midiática: @rodrigo_chaves_de_freitas
Perfil Cultural Caleidoscópio: siga @caleidoscopiobh
Para ler mais crônicas, acesse: https://caleidoscopio.art.br/category/cultural/cultural-musica/cronicas-musicais/
