LIRA PAULISTANA – A Vanguarda Paulista
Crônica da Era do Rock, por Rodrigo Leste
Atendendo a uma sugestão do parceiro e amigo Hilário Rodrigues, colaborador mais do que ativo dessas crônicas, vou falar hoje do Lira Paulistana, espaço mágico, encravado no coração da Pauliceia. Ali surgiram grandes artistas como Itamar Assumpção, Tetê Espíndola, Grupo Rumo, Língua de Trapo, Premê (Premeditando o Breque) e muitos outros.
Em 1979, no bairro de Pinheiros, São Paulo, foi inaugurado o Lira Paulistana, com capacidade para 200 pessoas. O local era comandado por Gordo e Waldir, dois camaradas entusiasmados pela possibilidade de fundar um teatro numa região onde qualquer imóvel acabava virando estacionamento. O LP funcionava como casa de shows, gravadora independente e local de exposições, promovendo a diversidade cultural e abrindo espaço para novas experimentações; acabou se tornando um ponto de referência para a vanguarda paulista.
Além dos nomes já citados, passaram pelo porão, na Praça Benedito Calixto, artistas como Ná Ozzetti, Vânia Bastos, Luiz Tatit, Rumo, Titãs, Kid Vinil e Ratos de Porão.
É bom lembrar que Lira Paulistana é o título de um livro de poemas de Mário de Andrade, publicado postumamente em 1945. A obra revela o olhar aguçado do poeta sobre a vida e o mundo.
Além da evidente importância no cenário e na história musical da cidade de São Paulo, o Lira Paulistana abraçou outras linguagens artísticas. O cinema talvez tenha sido, dentre elas, a mais presente na programação da casa. Filmes como Deu Pra Ti anos 70, O homem Que Virou Suco, Lira do Delírio, Kuarup, O Bandido Da Luz Vermelha e Sargento Getúlio estiveram em cartaz. Os cartunistas Glauco, Luiz Gê e Paulo Caruso também trabalharam no Lira. O teatro manteve uma gravadora e uma editora que, em um ano de existência, publicou o semanal de cultura Jornal Lira Paulistana.
O LP foi fundado durante a ditadura militar e apresentava-se como alternativa para os artistas que sentiam-se marginalizados em São Paulo. A metrópole, apesar de ser o coração da vida econômica do país e de possuir ativa vida artística, sofria com a concentração da indústria cultural no Rio de Janeiro. Nesse contexto, o Lira abriu espaço para que novos artistas se encontrassem com um público atraído pelos circuitos alternativos, dando lugar à produção independente na cidade.
Curiosamente, o grande nome desse time de artistas — Arrigo Barnabé — nunca se apresentou no LP. De qualquer maneira, ele sempre esteve relacionado com a casa e os artistas que lá se apresentavam. A Vanguarda Paulista (como o grupo de artistas se tornou conhecido) foi bem-sucedida de um modo geral, dando visibilidade aos vários talentos que participaram da onda. Contudo, destacaram-se dois criadores: Itamar Assumpção, com seu disco Beleléu e Arrigo Barnabé, com seu Clara Crocodilo, ambos lançados no ano de 1980.
Beleléu, Leléu, Eu, é o primeiro álbum de Itamar Assumpção, que foi acompanhado pela banda Isca de Polícia. O site de Itamar informa: “Beleléu está entre os cem discos mais importantes da história da música mundial.”
Segundo o jornalista Bruno Capelas:
“Hoje, quando penso em Itamar, penso em um dos artistas que melhor traduziu a complexidade de viver em São Paulo. Beleléu, Leléu, Eu é um disco que traduz essa complexidade: uma cidade polifônica, em que a busca de “alívio, sossego ou mesmo a morte” fazem a gente girar por aí. Em que samba, rock, funk e canção de amor se unem numa mesma toada, em ritmos que trafegam cada um por sua avenida, e se juntam num lugar só.”*
Clara Crocodilo de Arrigo Barnabé é quase que uma opereta pop que mostra as desventuras de um ser mutante. CC é apresentado como “Delinquente”, “facínora”, “inimigo público número 1”. É um transgressor da ordem social (“Quem cala consente, eu não me calo”), negando-se a “morrer nas mãos de um tira” ou “nas mãos de um rato”, e resistindo corajosamente diante de um sistema massificador. Clara Crocodilo permanece até hoje como uma das obras mais experimentais e inovadoras da discografia brasileira.
O Lira Paulistana, como o Circo Voador, no RJ, e o Cabaré Mineiro, em BH, configura-se como fortaleza de resistência aos desmandos e atrocidades perpetrados pela sanguinolenta ditadura militar no Brasil. Certamente o Lira será lembrado ao longo dos tempos e servirá de exemplo para as novas gerações.
https://meusdiscosmeusdrinks.substack.com/p/5-beleleu-leleu-eu-itamar-assumpcao
Pitacos e revisão: Hilário Rodrigues
Colaboração midiática: @rodrigo_chaves_de_freitas
Portal Cultural Caleidoscópio: siga @caleidoscopiobh
Para ler mais crônicas, acesse: https://caleidoscopio.art.br/category/cultural/cultural-musica/cronicas-musicais/
