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Artur Pereira ganha mostra de seu trabalho


Artur Pereira ganha grande mostra de seu trabalho, a partir do dia 09 de julho, no Centro de Arte Contemporânea e Fotografia, confirmando sua posição na escultura brasileira.

“É impressionante como as esculturas de Artur Pereira (1920-2003) tocam as pessoas, sejam os mais simples ou os mais intelectualizados. De alguma forma estão nas obras um arquétipo que emociona todos. É artista que tem obras geniais”. Palavras de Ricardo Homem para descrever o impacto do contato intenso com a arte singular do escultor mineiro, que vai ganhando muitas e importante reverências. Sentimento, vale lembrar, que é de todos diante dos trabalhos do mestre de Cachoeira de Brumado, distrito de Mariana, Minas Gerais.

Ricardo Homem é o curador da mostra Artur Pereira, esculturas, que poderá ser vista a partir de amanhã, no Centro de Arte Contemporânea e Fotografia, em Belo Horizonte. É exposição que se volta para apresentar seleção de momentos significativos do percurso do artista. Desde quando fazia potes e fruteiras até investimento no escultórico. O ícone da obra do artista são bichos, isolados ou reunidos em troncos, colunas, presépios, cenas de caçada etc., criando imagens de exuberante força plástica e enorme densidade poética.

Ainda falando do impacto da pesquisa sobre ele, Ricardo Homem não esconde encanto com peças que apresenta os bichos isoladamente. “São esculturas que ganharam muito com o passar do tempo”, observa. Também chama a atenção para o modo como Artur Pereira direciona a escultura para o que o tronco sugere, tática que, para o curador, dá força singular às galhadas com vários animais reunidos. “Há nos trabalhos uma inteligência que sabe tirar proveito do que o material sugere”, observa.

“O caminho de Artur Pereira no desenvolvimento de sua obra é ir simplificando cada vez mais as figuras, buscando o essencial delas, que, muitas vezes, está na forma da madeira que ele usa”, explica Ricardo Homem. Está nas esculturas do artista toda a vivência de lenhador que passava semanas no mato. O que levou à observação cuidadosa dos bichos. “Foi educação do olhar, que faz com que a observação dos bichos de Artur Pereira seja algo clássico”, afirma.

“Querer aprisionar o trabalho de Artur Pereiro no nicho arte popular é não querer ver a grandeza do que ele realizou”, avalia Ricardo. E defende que a mostra Artur Pereira, esculturas também se posiciona contra contexto que tende a considerar artistas não eruditos como menores e menos importantes. “Nossa preocupação foi fazer exposição que esteja à altura do artista”, completa. O fato de só agora um artista do porte de Artur Pereira estar ganhando livro sobre sua obra só revela problemas de quem faz arte em Minas Gerais.

Descaso mineiro


Ricardo Homem conta que o curador Paulo Herkenhoff, em Belo Horizonte, diante da dificuldade de ver a produção local, observou que Minas Gerais trata mal seus artistas. E ele concorda: “Ainda existe quem não conheça Artur Pereira; o livro de Lorenzato nunca é publicado; faltam exposições de Mario Silésio e Nello Nuno, por exemplo. E, mesmo um artista como Marcos Coelho Benjamim mostra pouco o que faz na cidade”. Ele lembra ainda que a mostra dedicada a Farnese de Andrade circulou pelo Rio e São Paulo, mas não chegou a BH. “Se em outros lugares o que tem valor está sendo tirado das gavetas, em Belo Horizonte só se apresenta o que está na moda”, crítica.

Situação, explica Ricardo, que não é só dos autores mais antigos e atinge até artistas dos anos 1980. Enquanto criadores do período, no Rio e em São Paulo, mostram seus trabalhos com regularidade, em Belo Horizonte os mineiros da mesma época são ignorados. Com relação à curadoria, conta que o bom da atividade é o contato direto com obras que trazem “o sentido de grandeza que tem arte, mesmo quando produzida em condições as mais adversas”, conclui.

Vida ligada à madeira


“Piquei lenha, fui pedreiro, plantei roça, trabalhei em olaria e fui acertar fazendo careta de pau”, brincou Artur Pereira em entrevista ao Estado de Minas, publicada em 28 de junho de 2000, quando comemorou 80 anos. O artista nasceu em Cachoeira de Brumado, distrito de Mariana, em 1920, terra natal também de dona Filhota, uma vizinha com quem se casou. Foi o terceiro de família de seis irmãos. Morreu em 2003. Na origem da escultura dele estava a profissão de lenhador, atividade pesada, mas que pagava bem – “nunca gostei de ganhar pouco”, dizia.

Aos 26 anos, depois de ver gato rodeando o local de trabalho, decidiu esculpi-lo. E com o machado fez a peça. “E pessoas gostaram”, observou. E não parou mais. “As esculturas não tinham valor. Um dia, José Alberto Nemer apareceu e disse que eu não podia ficar jogado aqui. E colocou meu nome para frente”, explicou. Levou presépio para Ouro Preto e ganhou concurso. Até os 55 anos, a escultura foi atividade paralela a outras, só abandonadas quando as encomendas aumentaram. “Não tinha confiança. O ofício de pedreiro dava pouco, mas tinha trabalho todo dia. E quem tem família tem de receber todo dia”, justificou.

Gostava das peças grandes e das galhadas pela possibilidade de colocar muitos bichos numa mesma escultura. Valorizava as obras do filho e do genro, seja porque aprenderam o ofício com ele ou porque riscava a madeira quando eles “tinham dúvidas”. Não escondia o jeito de trabalhar e até deu aulas de escultura. “Parto a madeira ao meio. Faço uma peça perfeita e a pessoa, em casa, faz a outra parte e traz para eu ver”. O artista era admirador de Aleijadinho: “Tudo que ele faz é bom. Não faz nada que a gente duvida. É escultura como deve ser”, dizia. Tinha um fã ilustre, que sempre elogiou o trabalho dele: Amilcar de Castro.

Exposição: Artur Pereira ganha mostra de seu trabalho
Local: Centro de Arte Contemporânea e Fotografia
Endereço: Avenida Afonso Pena, 737, Centro - Belo Horizonte/MG
Data: até 29 de agosto
Horário: De terça a domingo, das 12h às 19h; quinta, das 12h às 21h
Informações: (31) 3236-7400

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