Home | Cultural | Teatro | Teatro Contemporâneo | A Formação do Ator

A Formação do Ator na Cena Contemporânea - parte 2

Texto:
Cristina Tolentino


No início do séc. XX, a mecânica de Newton deixa de ser a base de toda a física. A teoria da relatividade e da física atômica, vão esfacelar os principais conceitos da visão newtoniana do mundo: a noção de tempo e espaço absolutos, a natureza estritamente causal dos fenômenos físicos e o ideal de uma descrição objetiva da natureza.

De acordo com a teoria da relatividade, desenvolvida por Einstein, o espaço não é tridimensional ( largura, profundidade, espessura ) e o tempo não constitui uma entidade isolada. Ambos acham-se intimamente vinculados, formando um "continuum quadridimensional", o "espaço-tempo". Nunca podemos falar do espaço sem falar do tempo e vice-versa. Observadores diferentes ordenarão diferentemente os eventos observados, ou seja, não existe só um anglo de visão finito, acabado.
Toda a estrutura do espaço-tempo depende da distribuição da matéria no universo, ao contrário da visão newtoniana, que acreditava que o mundo podia ser descrito objetivamente, sem sequer mencionar o observador.

Com isso, a concepção de um universo finito, tanto no tempo quanto no espaço, tanto no sentido de grandeza quanto no da pequenez, passa a ser questionada e recusada.
Não existe átomo indisível, uma partícula última que estabelece um limite para a subdivisão da matéria e para o conhecimento.
Estamos destinados a um movimento infindável do pensamento e ação. A realidade não está dada e constituída, está sempre nascendo e crescendo.

Nas artes, o movimento de vanguarda cubista, deixa de recorrer às essas convenções fechadas, em que o centro único de referência determinava que o mundo fosse visto por um só olho, imóvel. Renunciando a este ponto de vista ciclope, os cubistas buscam sugerir por perspectivas múltiplas, um mundo visto por um ou vários homens que se movimentam, modificando assim, os ângulos da visão. (leia na seção de artes plásticas o texto sobre Cubismo).
Olhar é um ato e o pintor nos faz tomar consciência de que o mundo real é um mundo construído, de que outros mundos são, portanto, possíveis. Passa-se de uma visão fechada, finita, fragmentada, para uma visão aberta, infinita, no campo das probabilidades.

Na ciência, Einstein vem nos colocar que a partícula é um ponto circular de um campo ondulatório, no qual se concentra ou a partir do qual irradia a energia, deslocando-se e desaparecendo, para renascer. A concepção do átomo, como uma esfera compacta, finita (visão newtoniana), cai por terra. Esta imagem nova do indivíduo - ritmo e movimento - que não é um ser constituído, pronto, acabado, um átomo fechado em si mesmo, mas um núcleo denso de uma energia, onde se enlaçam forças e fibras - o tornam participante de um todo.

É a retomada da concepção do mundo de Heráclito : o mundo é um fogo eternamente vivo que se acende e se apaga na mesma medida.
Na filosofia, Nietzsche vai tratar essa questão como a "vontade de potência", ou seja, o vir-a-ser que não conhece nenhum cansaço, nenhum fastio - que não tem um ponto final. Na psicologia, Freud e a psicanálise vem nos trazer esse mundo do inconsciente, esse mundo dos sonhos para além do mundo cotidiano, externo e visível.

Todo esse contexto vem abalar as estruturas rígidas de visão do mundo e do homem. O artista, como um ser de visão, vai perscrutar e perceber isso de uma maneira especial e a partir da sua sensibilidade, indagações, inquietação, vai tecer com a sua arte, esse novo olhar inaugural do mundo e do homem.

No teatro, um outro ponto, que vai enriquecer e modificar a arte do ator do século XX, é a ampliação dos horizontes históricos e a abertura geográfica.
Em 1912, Edward Gordon Craig (ator, cenógrafo e pesquisador da arte do ator), vai a Moscou trabalhar com Stanislawski.

Em 1931, na Exposição Colonial em Paris, o Teatro de Bali (da Indonésia), revela-se para Antonin Artaud( ator e diretor, que trouxe uma das mais importantes contribuições para o teatro no séc. XX), como a concretização das suas idéias a respeito daquilo que o teatro deveria ser. A Ópera de Pequim excursiona pela Europa. Jersy Grotowski (grande pesquisador da arte do ator em Opole, Cracóvia) , estuda in loco, a arte e a técnica dos atores chineses.

Isadora Duncan
Isadora Duncan

Na dança, Isadora Duncan rompe com as convenções e os códigos que há séculos vinha sufocando esta arte. Ela vai buscar nos fenômenos naturais, nas ondas, no vento, nas nuvens, modelos de movimento e disciplinas rítmicas.

Ela dizia: "a dança não é, como se tende a creditar, um conjunto de passos mais ou menos arbitrários que são o resultado de combinações mecânicas e que, embora possam ser úteis como exercícios técnicos, não poderiam ter a pretensão de constituírem uma arte: são meios e não fim".

Ela rejeita a pantomina, na medida em que esta não é mais do que um substituto da palavra, reproduzindo o real em vez de criar.

"Tive três grandes mestres - Bethovem, que criou a dança em termos poderosos ; Wagner em formas esculturais; Nietzsche, que a criou em espírito. Nietzsche foi o primeiro filósofo da dança", dizia Isadora.

E é em Zaratustra de Nietzsche, que ela encontra aquilo que resume sua concepção de vida e de dança: "Há sempre um pouco de loucura no amor, mas há sempre um pouco de razão na loucura.

E para mim também, para mim que estou destinado à vida, às borboletas e às bolhas de sabão, e tudo o que a elas se assemelham entre os homens, parece-me ser quem melhor conhece a felicidade. Quando vê esvoaçar essas almas pequenas, leves e maleáveis, graciosas e brincalhonas, Zaratustra tem vontade de chorar e de cantar.
Eu só poderia acreditar em um deus que soubesse dançar.
Aprendi a andar, desde então, deixo-me correr.
Aprendi a voar, desde então não preciso mais que me empurrem para mudar de lugar.
Agora sou leve, agora eu vôo, agora um deus dança em mim.
Assim falava Zaratustra."

É a partir de todo este contexto, que vamos pesquisar, estudar, aprofundar e acompanhar a trajetória da arte do ator no séc XX, que retoma seu lugar e sua importância no espaço e no tempo da representação, enquanto um ser humano inteiro, disponível, presente, ativo, dinâmico, em movimento, em ação, em constante vir-a-ser, criando novas maneiras de perceber o mundo e pensar a experiência humana - experiência de recuperação material do ato de existir.

Quer falar com a gente? (31) 3281.1196 - Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil / estudio@caleidoscopio.art.br || Produção: Caleidoscópio Multimídia